Dani Genovesi, a vencedora do Race Across America 2009, fala ao Prólogo sobre a conquista do primeiro lugar na mais dura competição do ciclismo mundial
17/07/2009
Por Felipe Vilasanchez
No dia 28 de junho deste ano, a carioca Dani Genovesi, de 41 anos, conseguiu, de uma só vez, duas grandes conquistas para o ciclismo nacional: foi a primeira mulher latino-americana a completar o Race Across America (RAAM), prova na qual os competidores atravessam os Estados Unidos de costa a costa, pedalando por 4.861 km e, além disso, foi a vencedora da competição, com o tempo de 11 dias, 17 horas e oito minutos – sendo, de quebra, a primeira mulher desde 2006 a completar o desafio dentro de 12 dias, tempo limite da corrida.
Ciclista desde os 31 anos, Genovesi começou no mountain bike e pedala também com bikes de estrada há nove anos. Além de encarar competições sobre duas rodas, participa de corridas de aventura, modalidade da qual escolheu o chefe de sua equipe para o RAAM, o líder do time Quasar Lontra, Rafael Campos, que, segundo Dani, foi muito importante na hora de administrar a equipe nas horas de estresse e cansaço extremos.
Em entrevista ao Prólogo, Dani contou como foi disputar o Race Across América 2009 e como enfrentou todos os desafios da mais longa corrida do ciclismo mundial.
Prólogo - Por que você decidiu disputar o RAAM? Dani Genovesi - Eu já vinha pensando nela desde quando eu me envolvi no ciclismo. Eu já competia em MTB há dez anos e depois fui para a estrada, fazendo provas de subida e de resistência. E aí surgiram a oportunidade e os patrocínios, e eu também consegui a qualificação na 24h de Fortaleza.
Prólogo - Como é a sensação de estar na linha de largada, sabendo que vai ter mais de 4.000 km pela frente? Dani - Na largada tem aquela coisa do friozinho na barriga. Mas eu estava super feliz de estar ali, com os amigos, com a equipe, de ter tomado a decisão certa na escolha da equipe. Já começou emocionante. Mas a ansiedade vai passando ao longo dos dias e depois ela volta nos últimos dias. Mas foram momentos especiais, foi inesquecível.
Prólogo - Quais foram suas maiores dificuldades? Dani - Foi lidar com a ausência de sono, que aconteceu logo no primeiro dia. Eu sofria com a falta de sono. E no final da prova, a 180 km do fim, eu comecei a ter dor no joelho. Porque até então eu tinha dor na ponta do pé, dor na virilha, dor no pescoço, mas eu estava conseguindo lidar bem com essas dores, que eram normais. Mas no joelho, quando eu vi que minha perna estava com dificuldade de pedalar, deu medo, porque faltava muito pouco. Aí eu vi que o RAAM só termina mesmo na linha de chegada.
Prólogo - Qual é a sensação de completar, e vencer, o RAAM? Dani - É aquela coisa da superação, de dever cumprido, de ter valido a pena, de realização, em todos os sentidos. Uma realização plena. Não tem preço você conseguir superar o desafio, e ainda mais com vitória, com um presente desses.
Prólogo - Qual você acha que foi seu maior diferencial durante a prova, que fez com que você ganhasse? Dani - O ritmo normal vai diminuindo ao final da prova e a minha distância foi aumentando, porque eu consegui manter o mesmo nível de rendimento. O meu ritmo no terceiro, quarto dia, se manteve igual no 11º dia.
Prólogo - Como você conseguiu manter um ritmo tão constante? Dani - Foi esse fato que me surpreendeu durante a prova. Eu devo isso tanto à minha parte de preparação física quanto à minha parte na prova. Três meses antes da competição, fiz um trabalho de preparação física com o Orlando Cani, meu professor de yoga, e ele participou da minha equipe. Quando chegava no momento de descanso, ele me manipulava. Eu era como um boneco, e ele me alongava, e eu falava pra ele algumas coisas que tinham me angustiando, e ele me ouvia, conversava e me alongava, trabalhava esse lado emocional, ia me auxiliando nisso e sempre quando eu acordava, depois de 3, 4 horas de sono, eu queria dormir mais e ele me tirava da cama e ia me despertando, com exercícios de alongamento, de respiração.
Prólogo - E como você fez para encarar tantas horas seguidas em cima da bicicleta? Dani - A gente dava muita gargalhada durante o percurso, e isso faz com que a gente consiga curtir a travessia. Não ficar só no sofrimento. Eu procurava sempre pedalar com prazer e eu acho que essa foi a receita, para encarar o sofrimento.
Prólogo - Você sentiu vontade de desistir? Dani - Vontade nunca. Só tive medo de o corpo entregar, não suportar. Mas eu sabia que ainda tinha tempo para recuperar o joelho. Eu até poderia parar seis horas. Eu já estava calculando o quanto eu precisaria empurrar a bicicleta. Mas a chegada vai se aproximando... e consegui continuar pedalando.
Prólogo - Você acha que o fato de disputar corridas de aventura ajudou a vencer o RAAM? Dani - Com certeza! A experiência com as corridas de aventura me ajudou principalmente a lidar com a ausência de sono e os momentos de grande desconforto, que eu já sabia como lidar – é algo cíclico, que dá e passa, e isso me ajudou a não jogar a toalha em alguns momentos.
Prólogo - Como foi sua preparação? Dani - Minha preparação foi quase toda em cima da bicicleta. Até três meses antes da prova eu estava misturando treino de MTB e treinos de estrada de quatro, cinco horas. E em fevereiro eu estive com o Cláudio Clarindo para fazer um treino com ele e conversar, e ele me deu o tom da filosofia de treino, que é conseguir ficar o máximo de tempo em cima da bicicleta. Ele falou: “Dani, você tem que almoçar com sua bicicleta, ir para o trabalho com a bicicleta”, e eu fui fazendo treinos mais longos, de oito horas, de dez horas e treinos de 18 a 20 horas pedalando. Então encerrava os 400 km com um percurso entupido de subidas, e isso tudo me ajudou no RAAM. Também treinei com minha equipe. A gente fez dois dias de pedal seguidos no Rio, como se fosse o RAAM, onde a gente praticou a comunicação, a alimentação. Não só eu tive que treinar bastante, mas a equipe também. Eles estudaram tudo do RAAM para mim, porque eu não tinha tempo, ficava o dia todo em cima da bike.
Prólogo - E qual foi a estratégia adotada para a alimentação? Dani - Minha alimentação foi toda elaborada pelo Oswino Penna. Cinco dias antes da competição, eu estava treinando quase nada e, de propósito, engordei, fiquei com 4,5 kg acima do normal. Minha preocupação era perder mais de 10% do meu peso. E a estratégia era eu me alimentar de hora em hora, assim, consumia 450 ml de líquido: ou bebida isotônica ou suco. E tinha almoço e jantar. No almoço, eu procurava comer o que estava na dieta prescrita: macarrão, batata, carne, carboidrato e proteína, tudo regado de azeite. E de noite eu comia alguma coisa que me dava prazer, uma pizza ou um lanche, e eu jantava pedalando.
Prólogo - Como você fazia para tomar banho? Dani - Durante o dia era uma mangueirada do motor home, só para refrescar o corpo e, de noite, quando a gente achava um hotel de estrada que ficasse na rota, optava em parar, tomar banho e então descansava as três horas em hotel. Só em duas noites que eu utilizei o motor-home, que tem banheirinho, tem tudo. É claro que não é um quarto de hotel, mas os banhos são quentes!
Prólogo - Quantas horas você dormia por dia? Dani - Dormia de três a quatro horas por dia, sendo que nos últimos dois dias, faltando 800 km, eu falei pro Rafa: vamos descansar só duas horinhas por noite.
Prólogo - Você ficava pensando em quanto tempo faltava para chegar no final? Dani - Eu procurei seguir o conselho do Clarindo, não pensar em quanto tempo falta. Não pensava se estava a duas ou três noites, eu só sei que passei pela americana na oitava noite. E eu só me liguei para a quilometragem quando eu estava nos últimos 800 km e foi horrível, porque demorou muito para passar.
Prólogo - E como foi a repercussão da sua vitória? Dani - Foi maravilhoso. Além de ter a mídia de lá, eu encontrei com um monte de amigos meus daqui do Rio que foram para lá, e é muito legal você estar em um momento muito bom da sua vida e compartilhar com seus amigos. E foi a maior alegria. Muito gostoso de festejar.
Prólogo - Você concorda com o Clarindo, que disse que 30% do RAAM é físico e 70% mental? Dani - Totalmente. Acho que para fazer o RAAM, você precisa ter uma base de resistência física como muitas pessoas que eu conheço têm. Mas isso não basta. Você tem que tirar força do lado psicológico. Porque tem que suportar uma rotina muito dura por 10, 12 dias. Qualquer coisinha faz você enlouquecer, sair desta energia. Tem que manter seu foco. Manter-se disciplinada.
Prólogo - Quantas bicicletas você levou? Dani - Três bikes. As três eram Specialized. Para subida, usei o modelo Tarmac; para plano, peguei uma do pessoal do triathlon, a Transition; e eu tive uma outra, na qual fiz uma adaptação, para usar no plano, e poderia usar também em subida: o modelo Ruby, que eu coloquei um clipe.
Prólogo - Você levou muitas câmaras e pneus? Dani - Levei quase 30 câmaras. E durante toda a prova, furou meu pneu cinco vezes.
Prólogo - Quanto você gastou, no total, competindo no RAAM? Dani - Eu imagino que foi de 50 a 60 mil dólares. Porque você tem passagem para dez pessoas, a minha passagem, a comida e muitas outras coisas. Meu patrocinador me deu carta branca.
Prólogo - Já está recuperada ou ainda está descansando? Dani - Já estou recuperada e já estou treinando de leve, mas sem compromisso, sempre confortável. E também voltei a dar umas remadas, que eu estava com saudades. Eu remo como um segundo esporte.
Prólogo - Você faria o RAAM mais uma vez? Dani - Eu pretendo se, no ano que vem, for em equipe. Até para mudar o treino, se não eu vou entrar no mesmo ciclo de treinamento que eu estava e eu quero fazer a La Ruta de los Conquistadores, na Costa Rica – uma prova de MTB de 5 etapas. Já estou fazendo a transição no treinamento. Mas em 2011, 2012, eu participaria e tentaria diminuir o tempo, ajustando a estratégia para evitar as dificuldades.