Bem-vindo ao Prólogo. Seu portal sobre duas rodas.      Sexta-feira, 27 de Novembro de 2009





Entrevista
Valente

Sétimo colocado no Race Across America 2009, Cláudio Clarindo fala sobre o desafio, a superação e os bastidores da mais dura competição do ciclismo mundial
10/07/2009





Por Felipe Vilasanchez

Cláudio Clarindo de Oliveira (Sais da Terra/ Specialized/ Terracom/ Angio Corpore/ Melora/ VO2Max), mais conhecido como Cláudio Clarindo, é um dos ciclistas mais guerreiros do Brasil: finalizou, neste ano, com uma equipe de cinco pessoas e na sétima colocação o Race Across America (RAAM), a mais dura prova do ciclismo mundial, com um percurso de 4.861 km que atravessa os Estados Unidos de oeste a leste.

Treinador desde os 22 anos, Clarindo, que hoje tem 32, teve seu primeiro contato sério com a bicicleta aos 17 anos, quando começou a disputar competições de triathlon. Com participações no mundial de 1996, realizado em Cleveland, nos Estados Unidos, e no Ironman Havaí, Clarindo dedica-se, desde 2002, ao ciclismo de longa distância e é dono de duas vitórias no 24h de Fortaleza, em 2005 e em 2006.

Natural da cidade de Santos, litoral paulista, Cláudio, que completou o RAAM pela primeira vez em 2007, também é o recordista brasileiro de distância, tendo percorrido, em 2002, 422 km dentro de 15 horas. Além disso, com sua conquista no Race Across America, ele é também o recordista latino-americano, tendo completado os quase 5.000 km da travessia em 10 dias, 22 horas e 25 minutos.

Em entrevista ao Prólogo, Cláudio Clarindo conta como foi participar pela segunda vez do RAAM e fala sobre a experiência de encarar um desafio tão exigente.


Prólogo - Você foi para o RAAM com algum objetivo preestabelecido?
Cláudio Clarindo - Eu tinha sempre o objetivo de ficar entre os cinco primeiros, mas quando cheguei lá, encontrei muitos atletas fortes que tinham corrido comigo em 2007. E, desta vez, dos 30 que participaram, 20 já tinham corrido o RAAM. Aí eu vi que seria difícil ficar entre os cinco melhores.

Prólogo - Você levou um tombo sério durante a prova. Como foi?
Clarindo - Na primeira noite, no deserto, eu vinha num pau danado, a 40 km/h, bati numa pedra e tomei um tombo cinematográfico. Ralei a perna, o braço... punhos e tornozelos ficaram inchados. E eu fiquei desesperado. Então parei um pouco, respirei e segui em frente. Mas toda hora meus machucados inflamavam por causa da poeira, então eu tinha que parar para limpar. Saía pus dos machucados.

Prólogo - Você teve vontade de desistir em algum momento?
Clarindo - Sim. Eu estava com meus machucados doendo muito, tinha passado pelo deserto de Utah, onde fez um calor enorme, e depois deu uma onda de calor de três dias nos EUA de mais 50 graus. Aí eu vi que não ia aguentar. Quis desistir. Mas minha equipe, maravilhosa, me falou: “se você quiser, você para, mas vai ser o décimo sexto a desistir”; então continuei. Também teve um dia em que eu tive uma crise existencial. Joguei a bike de lado e comecei a falar: “isso é coisa de louco, pra que eu vou fazer isso?” E lá veio a equipe para me ajudar mais uma vez. E, de novo, me convenceram a continuar.

Prólogo - Quantas pessoas havia em sua equipe?
Clarindo - Minha equipe tinha cinco pessoas, que compartilhavam todas as tarefas: o mestre de tae-kwon-do Fabio Goulart, Willian Carvalho (Japão), Leonardo Santos, que também foi mecânico, Toninho Pinheiro, que também foi cinegrafista, e minha esposa, Elisabeth Pereira. Só dois falavam inglês e dois não dirigiam. Mas eu não tenho palavras para eles. Em cinco pessoas é impossível completar. As outras equipes tinham 10, 15 pessoas ajudando. Eu devo muito à minha equipe. Eu não completaria se não fossem eles. Dentro da minha equipe, eu fui só o cara que pedalou.

Prólogo - Qual foi seu orçamento para o RAAM?
Clarindo - Fui com 35 mil reais, coloquei dinheiro do meu bolso. A gente tinha um GPS só. Tivemos que fazer conta de grana para gasolina. Completei a prova bem, machucado, e ainda sem dinheiro.

Prólogo - Como você se preparou para encarar este desafio?
Clarindo - Minha preparação não foi tão difícil. Eu treino aqui em Santos. Sempre pedalava de 200 km a 250 km por dia. Fazia 150 km, 200 km com meus atletas e ficava mais 50 km, mais 100 km na estrada. O ruim não era a preparação, o ruim é o patrocínio.

Prólogo - Qual é a sua rotina de treino?
Clarindo - Faço muitos treinos de 200 km, 400 km. Periodizar uma quilometragem. Fazer treinos acima de 150 km, com treinos-chave, mais longos. E evito bastante pedalar à noite, não vejo necessidade. Pois pedalando à noite só desgasta o físico e o mental. Você vai passar por isso na prova, não precisa passar por isso antes. Você vai se desgastar muito e vai precisar de mais tempo para recuperação.

Prólogo - Você acha que o fato de ser treinador ajudou a completar bem o RAAM?
Clarindo - Eu já tenho uma certa experiência no ciclismo, o que me ajuda, porque em certos momentos eu tenho que entender o que está se passando dentro e fora do pedal. Eu falava muito para a Dani [Genovesi, vencedora do RAAM na categoria feminina]: “Dani, não entenda o RAAM como uma prova física, mas sim como uma prova mental”.

Prólogo - De que forma ela é uma prova mental?
Clarindo - Eu vejo assim: 70% da prova é mental e 30% física. Porque quanto ao físico, você depende dele, não importa seu cansaço, seu desgaste. Mas o que te leva para a frente é o mental.

Prólogo - E o que é que se passa fora do pedal?
Clarindo - O que se passa fora do pedal é a equipe de apoio, o que está acontecendo com eles. Dirigir acompanhando o ciclista, com pisca-alerta ligado, sem dormir, é muito estressante. E às vezes a equipe tem reações que você não pode encarar como uma má reação. Você vai ter que engolir muitas coisas, porque se você quiser tirar satisfação de tudo, vai sair do RAAM.

Prólogo - Como vocês fizeram para lidar com o estresse?
Clarindo - A gente tem uma regra na nossa equipe que diz que tudo o que acontece é “ponto final, segundo parágrafo”. Discutiu? Não se fala mais nisso. A agente deixa para lavar a roupa suja depois da prova. Mas a gente acaba esquecendo e nem liga mais para os atritos, então fica tudo bem.

Prólogo - Houve muitas brigas em sua equipe?
Clarindo - Não existem brigas. Existem discussões. Se chegar ao ponto de briga, acaba a prova. E eu tinha que controlar muito essa condição. Porque a equipe também briga entre si e isso transparece. Mas no final eles já estavam muito unidos.

Prólogo - Quantas horas você dormia por dia?
Clarindo - O Fábio Goulart veio com uma estratégia chamada “sleep frog”, na qual eu dormia 10 minutos, acordava, continuava pedalando, aí um pouco mais tarde eu parava, dormia mais dez minutos, acordava, e voltava a pedalar. E isso fazia com que à noite eu conseguisse dormir só duas horas e meia e ficar descansado o suficiente. Dessa forma eu consegui ultrapassar muita gente.

Prólogo - E o que você achou da vitória da Dani na categoria feminina?
Clarindo - Ela foi muito guerreira. Mesmo tendo poucas mulheres na categoria, ela fez um tempo excepcional. A equipe dela era muito boa, muito bem estruturada. E ela teve a oportunidade de se concentrar no que ela sabe fazer, que é pedalar. Tinha engenheiro de tráfego, massagista, e isso dá uma grande segurança para o atleta. Essa estrutura foi fundamental, ainda mais com ela tentando ser a primeira brasileira a completar.

Prólogo - O que teve de diferente entre este ano e o RAAM de 2007?
Clarindo - A única coisa de diferente é que o percurso foi mais difícil. E a temperatura também estava muito alta, mas como eu sou santista, estou acostumado com sol. Os europeus sofreram bastante. Mas o fato de eu conseguir aguentar o sol também foi uma vantagem.

Prólogo - Qual foi seu momento mais difícil?
Clarindo - Faltando umas 82 horas para acabar a prova, eu já estava meio que P da vida, começou a esfriar muito, meu machucado começou a inflamar, eu estava com um sono terrível. Lutar contra o sono é muito difícil, ele é um dos piores inimigos. Você acaba ficando louco. Mas minha equipe me ajudou, paramos, deitei e dormi. Fui de 9º colocado para 11º. Mas aí eu dei uma recuperada boa, fui para cima e ultrapassei todo mundo de novo, indo para o oitavo lugar.

Prólogo - E o que mais te atrapalhou durante a travessia?
Clarindo - O sol foi forte e a mudança de temperatura eram dolorosos. Mas não tem dor maior que a falta de patrocínio. Pedalar com ferimentos é muito ruim, mas eu podia parar, tomar um banho, lavar os machucados. Só que pedalar pensando que você tem que economizar é muito difícil!

Prólogo - Como você e sua equipe planejaram a alimentação?
Clarindo - A alimentação foi tranqüila, porque a gente programou uma coisa bem básica. Usamos géis de carboidrato, proteína líquida. No começo você mantém tudo regrado, mas no final você tem vontade de comer alguma coisa diferente. A dois dias do final, a gente comeu uma pizza, por exemplo. E você vai diferenciando um pouco. Dez dias comendo a mesma coisa é fogo. Mas a alimentação não influi tanto, não tem segredos. Você só precisa ter uma alimentação balanceada. Mas eu comia sempre em cima da bike. Só quando eram as refeições mais completas que eu parava.

Prólogo - E como você fazia para ir ao banheiro?
Clarindo - No RAAM a gente usa dois carros. O carro que vai atrás de mim e o motor-home [um tipo de trailer], e o banheiro do motor-home ficava pra mim. Mas eu acabei usando ele só em dois ou três dias. Eu acabava indo em postos de gasolina. Mas, uma vez no deserto, minha esposa me deu um macarrão com molho vermelho e eu com molho vermelho não me dou bem. Estava pedalando no deserto, só vendo areia de um lado pro outro e comecei a ficar mal do estômago. Acho que deu uns dois quilômetros e eu saí da bike gritando: “segura, segura!”, fui tirando a roupa e fui para o meio do deserto. Foi coisa de louco! A equipe só ria. Depois eu fiquei uns 40 minutos sentado para me recuperar da tensão. Mas ter dor de barriga no meio do deserto é fogo. Fica tudo cheio de areia.

Prólogo - Você teve algum outro momento de grande tensão?
Clarindo - Teve um dia no Kansas, que todo mundo precisava dar uma dormida de duas horas. Começou a chover e no rádio dava um alerta de furacão. Foi todo mundo para o motor-home. O carro balançava bastante, deu medo. Ligamos para a organização da prova para pedir uma ajuda. O Japão, que viveu 22 anos lá, foi o primeiro a se trocar, pronto pra ir para um abrigo.

Prólogo - Quantas bicicletas você levou?
Clarindo - Usei duas bikes Specialized. Modelos Roubaix, de estrada, e Transition, de contrarrelógio.

Prólogo - E as roupas? Quantas você levou?
Clarindo - Levei dez jogos de roupa, com dez bermudas e dez camisas. A 600 km do final da prova, alguém passou e roubou quatro camisas minhas que estavam secando no varal do motor-home.

Prólogo - Qual é a sensação de pedalar tantos quilômetros?
Clarindo - É ruim demais, porque a gente fica toda hora querendo saber quanto falta. É igual criança viajando com os pais, quando não para de perguntar quanto falta para chegar.

Prólogo - E como é o momento de chegada?
Clarindo - Quando você chega em Anápolis, um carro te escolta até o fim da prova e você desfila pela cidade com a bandeira do seu país. E fica feliz, começa a pensar em tudo o que passou. Missão cumprida.

Prólogo - Qual é a reação do público e da mídia?
Clarindo - No RAAM, depois que você acaba, entrevistam você, te jogam para cima. No jantar você conta a história e o pessoal prestigia. E você vem para cá e acaba tudo.

Prólogo - Como é o pós-prova?
Clarindo - O RAAM é uma competição muito honesta. O cara que completou fez isso de forma limpa. E todo mundo se confraterniza, se abraça, se parabeniza. São pessoas que completaram o mesmo desafio, rola essa ligação entre todos.

Prólogo - Como está seu processo de recuperação?
Clarindo - Ainda estou me recuperando e tomando antibiótico por causa dos machucados. Meus dedos mínimos estão dormentes até hoje. Mas, no começo da semana que vem, espero já voltar a pedalar, fazer meus treininhos leves, com o pessoal.

Prólogo - Você tem planos de fazer o RAAM mais uma vez?
Clarindo - Se eu tiver patrocínio, eu volto e para ficar entre os cinco de verdade. Minha vontade de ficar entre os cinco primeiros é muito grande. E a disputa também é muito grande. São 30 caras de todo o mundo com o mesmo potencial e que querem a mesma coisa.

Prólogo - O que você considerou necessário para completar o RAAM nas condições que você estava e obter o resultado que você conquistou?
Clarindo - Além da sorte, eu tive muita perseverança, se não, não ficaria nem entre os dez primeiros. Deixei a prova ir acontecendo e eu fui lutando para colocá-la a meu favor. Mas é sobre-humano fazer isso. Devo tudo à equipe. É a minha frase deste RAAM de 2009.

Mais informações sobre Cláudio Clarindo podem ser encontradas no site pessoal do atleta: http://www.clarindo.com/






Newsletter
Newsletter
Cadastre-se para
receber tudo sobre o
mundo do pedal

Email



Qual será o destino de Alberto Contador na temporada 2010?
Surpreende e acerta com a Silence-Lotto
Aceita o apêlo de Boonen e fecha com Quick Step
Sente saudades de Armstrong e vai para Radio Shack
Junta-se a Alejandro Valverde na Caisse d´Espargne
Renova com a equipe Astana, mesmo insatisfeito
design por IT Soluções