Paulo Márcio Ferreira, ou Melão, treina desde 2008, em conjunto com a professora de educação física Sandra Cerutti de Souza, atletas paraolímpicos da Associação de Pais e Amigos de Excepcionais (APAE) de Caieiras
19/05/2009
Ciclistas da Apae comemoram no pódio
Ciclista há 20 anos, Paulo Márcio Ferreira, de 37 anos, vêm fazendo, desde o início de 2008, um trabalho pioneiro no ciclismo brasileiro: junto com a professora de educação física da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) de Caieiras, Sandra Cerutti de Souza, ele treina atletas paraolímpicos da APAE da cidade.
Treinador desde 1999, Melão, como também é conhecido, ensina na escolinha de ciclismo de Caieiras e já passou pelas equipes paulistas de São Caetano, São Bernardo, Caieiras e Ubatuba. Atualmente, Paulo está, pela segunda vez, na equipe de São Caetano, onde é o responsável pelo time da elite feminina.
Marcando presença em importantes eventos do calendário nacional, como a Copa de Ciclismo Amador, Melão e sua equipe vêm mostrando que o ciclismo é um esporte para todos e que com as diferenças só temos a aprender.
Prólogo - É a primeira vez que você faz este tipo de trabalho? Melão - Já havia trabalhado com atletas especiais em 2007, com a APAE de Ubatuba, quando eu trabalhava na prefeitura da cidade, mas não tinha treinado ciclismo. A gente trabalhava com bocha e malha, que é um esporte italiano. Não são esportes olímpicos, mas foi onde teve espaço para eles, e eles se encontraram bem, tiveram bastante resultado e foi muito satisfatório.
Prólogo - E como surgiu a oportunidade de trabalhar com ciclismo? Eu sempre tive vontade. Mas a facilidade que nós temos aqui é que temos o velódromo, que ajudando bastante porque é indoor. Como no futebol, o futebol de salão é mais compacto e por isso você consegue dar mais atenção aos atletas. No velódromo você consegue trabalhar o equilíbrio e as dificuldades, então é muito bom. Com eles é sempre muito bom trabalhar, eles têm uma alegria constante, sentimentos à flor da pele, então é muito bom trabalhar com pessoas assim. É revigorante.
Prólogo - Como é trabalhar com eles? Melão - Se você vir no Brasil, o primeiro presente que os pais dão para a criança é a bola, e a segunda, que já é uma conquista, é a bicicleta. E o sentimento de liberdade que você tem com a bicicleta é algo que fascina o homem. Dá aquela sensação de realização. Então, para eles é uma coisa nova, deixa de ser aquela sensação que estava restrita para eles e que se tornava mais difícil por causa da acessibilidade. Eles contam os dias pra vir, e melhoram cada vez mais. As competições se tornaram algo que eles contam os dias para ir, aumenta a auto-estima deles, e eles estão no meio das pessoas. Isso lhes dá muita credibilidade, e mostra que eles são iguais a todos.
Prólogo - Como foi seu processo de adaptação? Melão - A adaptação é em relação ao fato de que cada um tem uma deficiência, e existem diferenças entre eles. Alguns estão sob fortes medicações, outros não. Mas é muito bom, por que os que têm mais dificuldades, nós auxiliamos. Mas é como ensinar alguém a andar de bicicleta. E, tecnicamente, é muito fácil trabalhar, eles estão sempre de bom, humor, muito felizes, é um ótimo astral.
Prólogo - Como a Sandra está ajudando você? Melão - A Sandra é uma das mentoras disso. Ela trabalha diretamente com a APAE, junto com os outros estagiários para a gente realizar os treinamentos, a parte didática e o treino para as competições. Então ela é a parte vital e a mentora de tudo. Quem escolhe trabalhar por isso é por que tem o talento, tem o dom pra coisa, realmente gosta. Ela foi enviada por Deus e está tudo dando certo.
Prólogo - Você aprendeu alguma coisa treinando os atletas paraolímpicos que mudou sua forma de treinar os demais atletas? Melão - Você aprende a respeitar o espaço de cada um, a respeitar o espaço do próximo. Isso a gente aprende por que eles dão uma lição de vida todo dia. Todo dia que a gente chega de uma forma, eles mostram o mundo de outra. Nós achamos que temos problemas, e às vezes não precisamos nem olhar pra trás – é só olhar pro lado – para ver que não é bem assim. E isso a gente aplica aos atletas de alto rendimento, e à vida também. Eu aprendo mais do que ensino. É só fazer a troca, que não tem como dar errado. É muito bom.
O deficiente intelectual, em particular, a sensibilidade deles é muito aflorada, eles são pura emoção. Você não pode falar muito alto e também não pode ficar muito triste, por que eles logo percebem. Então é só fazer a troca que não tem como dar errado, é muito bom.
Prólogo - E como é ir para as competições com estes atletas? Melão - Eles, quando formam um grupo, não se importam quem ganhou. A gente vê que isso é a realidade. Eles fazem festas pra quem for, que essa festa é igual. Isso é muito reconfortante. Você vê que isso ainda é do ser humano, mas nós esquecemos.
Prólogo - Conte como era quando você treinava bocha. Como foi este começo? Melão - O lema da bocha é fazer amigos, é por isso que quem mais pratica a bocha é a melhor idade, pessoas mais vividas, mais resolvidas. E muitas dessas pessoas tinham filhos especiais e nunca imaginavam que poderiam vê-lo praticando o mesmo esporte que eles, e isso era a realização da vida deles, porque eram crianças que viveram excluídas conseguiram demonstrar que tinham capacidade e que conseguiam fazer tudo o que as outras fazem. Conversou com a diretora da APAE, que apresentou a Sandra a ele, e firmaram o projeto. Quem escolhe trabalhar por isso é por que tem o talento, tem o dom pra coisa, realmente gosta. Ela foi enviada por deus e ta tudo dando certo.
Prólogo - Quem são os principais apoiadores do projeto? Melão - Do apoio total que nós temos, 95% vem da Federação Paulista de Ciclismo. A própria APAE de Caieiras também nos ajuda, e temos o apoio com o transporte da prefeitura municipal de Caieiras. Mas as bicicletas e o espaço são trabalho da federação.
Prólogo - Quais são os objetivos e planos do projeto? Melão - Como é algo pioneiro na nossa modalidade, primeiro precisaremos integrar essas pessoas ao meio, e isso graças a Deus estamos conseguindo. Com a ajuda da Federação Paulista de Ciclismo (FPC) conseguimos integrar a categoria na federação. Então eles têm uma bateria destinada a eles, um circuito destinado a eles. Um convite também foi feito pela Sandra às outras APAE, chamando todas para participar. O objetivo é que isso se solidifique em todos os núcleos da APAE. É um caminho que o esporte paraolímpico traçou há muito tempo atrás. Os nossos paraolímpicos têm uma força mundial muito expressiva. O caminho é esse. Ir integrando o estado, e assim por diante. Nós queremos ter uma prática expressiva da modalidade.